Dica 465 – Valorize o professor brasileiro

Não sei se você está acompanhando a polêmica causada pelo comercial da Open English, uma escola de inglês online. Eu assisto a programas de TV todos os dias, mas assisto a programas baixados na Internet, e nunca ligo a TV em canais abertos ou a cabo. Por isso não conheço os comerciais. Acabei tomando conhecimento deste através do facebook, numa mensagem do Vinícius Nobre, meu amigo e presidente do BRAZ-TESOL (a associação dos professores de inglês do Brasil).

No comercial dessa escola, eles dizem que um professor de inglês nativo é melhor do que um brasileiro, e chegam a ridicularizar o professor brasileiro. Assista ao comercial e julgue por si:

Eu já escrevi sobre professores nativos e professores brasileiros na Dica 64 em 2010 (https://dicasingles.wordpress.com/2010/05/24/dica-64-professor-nativo-x-professor-brasileiro/) e também no livro “101 Dicas Para Você Aprender Inglês Com Sucesso”. E como eu já disse antes, não importa se o professor é nativo ou brasileiro, mas se é competente. Eu conheço professores nativos que são excelentes e professores brasileiros que são excelentes. Mas também conheço professores nativos e professores brasileiros que não são tão bons.

Eu mesmo, como falante nativo de português, não saberia dar aula de português. Há muitos anos, na escola em que eu tabalhava, um dos professores de português para estrangeiros faltou, e me pediram para substituí-lo. Embora eu seja um ótimo professor de inglês, a minha aula de português foi um desastre. Talvez depois de fazer um bom treinamento, eu possa até começar a ensinar português, mas só o fato de falar português não me qualifica para dar aulas.

Já no caso do inglês, mesmo eu tendo nascido no Brasil, eu tenho formação de professor. Quando eu terminei a minha pós-graduação em engenharia civil e me tornei professor de inglês, comecei a fazer cursos, comecei a estudar e me qualifiquei como professor de inglês. Hoje tenho 25 anos de experiência e dou até cursos de treinamento para professores.

Há muitos professores nativos que têm formação de professores. Eu poderia citar vários que conheci na minha vida. E há também muitos que dão aula só por serem nativos, sem terem nenhuma formação. Não basta você saber falar inglês. Se você pegar um mendigo americano, ele sabe falar inglês. Será que isso o qualificaria como um professor nativo?

Eu não acho que o professor brasileiro seja melhor que o nativo, e também não acho que o nativo seja melhor do que o brasileiro. Há professores bons e pronto. E a escola, na hora de contratar, é que deve ter o seu critério. Na escola em que eu trabalho há vários professores nativos. E é ótimo tê-los por perto. Quando temos alguma dúvida, ou quando encontramos uma palavra que não conhecemos, por exemplo, podemos sempre usá-los como referência. Mas há alguns dias eu estava tentando entender a letra de uma música que tinha uma palavra que eu não entendia, e nem os meus colegas nativos conseguiram descobrir que palavra era. Fui eu mesmo que descobri sozinho depois de um tempo.

Não se deixe iludir por essas propagandas de que a escola só tem professores nativos. E principalmente, não faça pouco dos professores brasileiros. Eles são extremamente competentes e há muitos que falam um inglês excelente. Eu dou palestras no Brasil todo, e por onde eu vou sempre encontro profissionais excelentes. Lembre-se também de que o professor brasileiro passou pelas mesmas dificuldades que você passa para conseguir aprender inglês. Ele sentiu na pele o que é aprender inglês aqui no Brasil e por isso pode te dar muitas dicas de como aprender.

Reproduzo aqui a carta publicada no facebook pelo Vinícius Nobre – Vinnie – o presidente do BRAZ-TESOL:

“Como presidente da maior Associação de professores de inglês do Brasil, eu sinto a incontrolável necessidade de me posicionar e expressar meu desapontamento e choque em relação ao comercial que está sendo veiculado em rede nacional promovendo um curso de inglês online.
Eu NÃO sou um falante nativo da língua inglesa, eu não tenho longos cabelos loiros, não moro na California e não visto uma camiseta justa para ensinar meus alunos. Na verdade, eu NUNCA tive um professor de inglês “nativo”. Eu nunca sequer morei em um país falante da língua inglesa. Eu simplesmente estudei inglês no meu país em desenvolvimento e depois cursei quatro anos de linguística, literatura, aquisição de idiomas estrangeiros, morfologia, pronúncia, sintaxe, educação, pedagogia, métodos e abordagens. Eu simplesmente dediquei 16 anos da minha vida ao desenvolvimento pessoal e profissional dos meus milhares de alunos. Nunca exibi meu passaporte ou minha cidade-natal, porque eu estava ocupado demais me preocupando com as necessidades comunicativa e afetivas dos meus alunos. Eu NÃO sou um falante nativo de inglês; portanto – de acordo com esse comercial – não me qualifico para ensinar. Provavelmente me qualifico apenas para ser uma imitação grotesca e irresponsável de um professor.
Assim como eu, milhares de educadores esforçados, talentosos, comprometidos, apaixonados e desvalorizados (do Brasil ou de qualquer outro país não falante de inglês) são definidos em 30 segundos de uma desesperada e inaceitável tentativa de seduzir alunos. Eu conheci professores fantásticos, independente de suas nacionalidades e muitos que inclusive eram “falantes nativos de inglês”. Os melhores educadores, no entanto, sempre tiveram a dignidade de reconhecer e respeitar as qualidades de um colega “não-nativo”.
O ensino de línguas estrangeiras desenvolveu-se tremendamente para garantir a justiça e o respeito que todos os profissionais sérios da área merecem (nativos ou não). Pelo menos entre nós mesmos. Se alunos ainda insistem em dizer que um professor “nativo” é melhor, pelo menos temos o conforto de saber que dentro da nossa profissão encontramos o reconhecimento que profissionais comprometidos e qualificados precisam ter. É triste, no entanto, ser ridicularizado por um centro (que alega ser) de ensino.
Como presidente do BRAZ-TESOL, como um falante “não-nativo” do inglês, como um admirador de profissionais do ensino, independente da sua nacionalidade, eu me ressinto por ser transformado em um piada tão irresponsável. Mas quem sou eu para ousar falar qualquer coisa sobre o ensino de inglês. Não sou a Jenny da California – o maior exemplo de educadora de inglês como língua estrangeira.”

Valorize o professor brasileiro!

Até a próxima,

Carlos

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